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Cutucando o tigrinho

COM VARA CURTA

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As casas de apostas invadiram os lares brasileiros e, sob o consenso da legislação, comprometeram a saúde mental e a realidade financeira de diversas famílias

Por:
Eduardo Bessa
mATEUS DE OLIVEIRA
Lorenza de lourenzo

Em 2025, a Comissão Parlamentar de Inquérito (C.P.I) das Bets chamou a atenção do público geral ao convocar influenciadores como Virgínia Fonseca, Rico Melquíades e Padre Patrick. Esta C.P.I. aconteceu devido às investigações que cada vez mais se tornam frequentes, envolvendo principalmente lavagem de dinheiro, estelionato e enganação do consumidor.

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Dentre todos os depoimentos, o de Virgínia Fonseca chamou a atenção popular e foi caracterizado pela leveza e descontração com o qual o tema foi tratado, tanto pela influencer quanto pelos senadores. Este episódio evidenciou o descaso com o qual se trata os prejuízos relacionados à saúde mental, o quadro financeiro e as relações sociais dos adictos em apostas.

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É um cenário complexo que envolve contextos distintos - as economias de diversas pessoas, de instituições e a conivência de um sistema que envolve diversas camadas do ecossistema digital. Qual o preço da ação deliberada destas casas de apostas e, principalmente, qual o panorama que uma pessoa encontra ao buscar ajuda para sair deste vício?

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Andressa Anholete/Agência Senado 

Leia da forma que preferir:

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Historicidade

Conheça um pouco da história da cultura de apostas no Brasil

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Regulamentação

Entenda um pouco mais sobre a regularização das casas de apostas atualmente no Brasil

O Começo das Apostas no Brasil

Funcionários do Cassino da Urca contando o dinheiro arrecadado em uma noite de operação (Rio de Janeiro) 

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Arquivo / Agência OGlobo

No Brasil, a cultura de apostas não é recente. Em seu percurso histórico, o país vivenciou momentos frutíferos para essas práticas, enquanto, noutros vivenciou sua recusa total. Hoje em dia, a cultura das apostas se tornou mais presente no cotidiano de muitos brasileiros; os cassinos deixaram de possuir prédios suntuosos, para no digital e com  simples toques na tela, atrair milhões de apostadores. Para compreender um pouco mais dessa prática que tem se popularizado, é necessário, antes, analisar a historicidade dessa cultura no Brasil.

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As primeiras casas de apostas surgiram durante o século XVII, trazendo entretenimento para os brasileiros das classes mais altas. Foi em 1784, na cidade de Vila Rica, atual Ouro Preto, que foi criada a primeira Loteria Nacional. O dinheiro gerado pela loteria possibilitou a construção de prédios importantes para a cidade, como a Câmara dos Vereadores e a Cadeia Pública.

Em 1917, o presidente da república, Venceslau Brás proibiu as práticas relacionadas aos jogos de azar em todo o território brasileiro. O sucesso que acompanhou o desenvolvimento das apostas no Brasil fez com que sua prática continuasse mesmo na clandestinidade. Exemplo disso, é o tão famoso jogo do bicho, que surgiu durante o final do século XIX e manteve seu funcionamento mesmo ilegal, atraindo diversos apostadores no período em que jogos de azar se tornaram proibidos.

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A proibição não teve longa duração e em 1920 as apostas foram legalizadas por Epitácio Pessoa. Porém, a legalização não foi suficiente para os cassinos se desenvolverem, uma vez que havia um receio dentro deste mercado de que a qualquer momento o estado poderia fechar as casas de apostas novamente. Foi só durante o governo de Getúlio Vargas, com a diminuição de impostos, que os cassinos puderam se desenvolver, transformando aquele momento oportuno na grande “Era de Ouro” dos jogos de azar no Brasil. Durante esse período, o Brasil presenciou uma grande movimentação na economia, destacando-se os grandes números no setor de turismo, impulsionando uma grande quantidade de novos empregos relacionados à legalização dos jogos. Ao longo dessa era, houveram cassinos com grande destaque como o Cassino Atlântico, Cassino Copacabana Palace, Cassino Paulista e entre outros, que permitiram a vinda de figuras públicas do século passado, como Albert Einstein, Frank Sinatra, Walt Disney e Janis Joplin. Os jogos mais comuns durante esse momento foram Roleta, Blackjack e Poker.

Cassino no Rio de Janeiro na década de 1930

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Reprodução/Senado Notícias

Pessoas apostando no jogo do bicho em 1956

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 Arquivo/Estadão Conteúdo/AE

Esta era não foi tão duradoura e em 30 de abril de 1946, jogos de azar e cassinos foram proibidos em território brasileiro. Ao tomar a decisão de proibir essas práticas, o presidente Eurico Gaspar Dutra afirmou que os jogos seriam nocivos à moral e aos bons costumes. Muitos senadores e deputados acreditavam que a proibição seria um decreto moralizador. De forma semelhante a proibição realizada no início do século por Venceslau Brás, as práticas continuaram na clandestinidade, agora, no entanto, algumas encontraram respaldo legal, como corridas de cavalos e apostas esportivas que foram autorizadas pelo governo brasileiro.

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Conhecido por muitos brasileiros, o jogo do bicho foi uma das apostas que se mantiveram ativas mesmo de maneira ilegal. Criado em 1892, no Rio de Janeiro, pelo Barão João Batista Viana Drummond, o jogo serviu para atrair visitantes para o Jardim Zoológico. Visando contornar as dificuldades financeiras após a perda do subsídio imperial, o jogo tinha por objetivo arrecadar capital para o Jardim. O visitante que comprasse um ingresso para acessar o local, recebia uma figura com um dos 25 animais a serem sorteados. Caso o escolhido fosse sorteado, o visitante seria recompensado com um prêmio em dinheiro que representava cerca de 20 vezes o valor do ingresso. Praticado de forma incontrolável mesmo após sua proibição, o jogo do bicho é um dos jogos de azar que evidenciam como a cultura de apostas se enraizou na sociedade brasileira.

Com a Medida Provisória (MP) 846/2018, convertida na Lei 13.756, de 2018, o governo de Michel Temer legalizou as apostas esportivas praticadas em ambiente digital, funcionando como uma espécie de loteria. Porém, a legalização ainda deixou muitas lacunas sobre a atuação dessas casas de apostas, levantando uma série de questões e debates sobre a regulamentação das apostas esportivas no Brasil. Foi somente em dezembro de 2024, a partir da Lei 14.790, que as apostas vieram a ser reguladas em ambientes onlines e físicos.

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A criação da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), órgão desenvolvido após a regulamentação, permitiu que fossem publicadas diversas diretrizes para as operações de casas de apostas no Brasil. Não só isso, a secretaria ainda propõe uma série de monitoramentos que previnem lavagem de dinheiro e a construção de medidas de prevenção ao jogo compulsivo, evitando a indução ao endividamento. O órgão também estabelece diretrizes que fiscalizam as práticas comunicativas das casas de apostas, monitorando publicidades realizadas.

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Mesmo com a regulamentação que busca um jogo responsável e que previne certas mazelas que afetam o quadro econômico e social brasileiro, as problemáticas geradas pelo mercado de apostas ainda estão longe de ser solucionadas. As apostas têm se tornado cada vez mais populares desde a regulamentação, mas crescem conjuntamente com a popularidade, uma série de questões que precisam ser alertadas aos brasileiros. 

Michel Temer assinando a Lei 13.756/2018

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Reprodução/GamesMagazineBrasil

Percurso Histórico

1748 - 1946

Origem e
"Era de Ouro"

  • Primeiras casas de apostas surgem no Brasil; em 1784 é criada a primeira Loteria Nacional em Vila Rica.

  • Proibições e liberações alternam ao longo dos anos (Venceslau Brás proíbe em 1914; Epitácio Pessoa legaliza em 1920).

  • Durante o governo Vargas, ocorre a “Era de Ouro” dos cassinos, com forte impacto no turismo e na economia, até a nova proibição em 1946 por Eurico Gaspar Dutra.

1946 – 2018

Proibição e 
Clandestinidade

  • Cassinos permanecem proibidos, mas o jogo do bicho (criado em 1892) se fortalece na cultura popular.

  • Apostas legais restritas a corridas de cavalos e esportivas.

  • Intensificação dos debates sobre legalização dos jogos de azar.

2018 - Hoje

Regulamentação e
Atualidade

  • Legalização das apostas esportivas digitais pela Lei 13.756/2018.

  • Regulamentação efetiva em 2024 com a Lei 14.790.

  • Criação da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), com foco em fiscalização, combate ao vício e controle do setor.

Regulamentação das apostas digitais no Brasil

O Presidente da República à época, Michel Temer, sancionou em dezembro de 2018, a lei que legalizava as apostas de quota fixa, também conhecidas como apostas esportivas, em território brasileiro. A atividade era proibida no Brasil até então, porém o governo enxergou necessidade nesta medida, tendo em vista a atuação de populares sites de apostas, que possuíam sede em países estrangeiros, mas que poderiam ser acessados na internet por usuários do Brasil.
 

Prevendo um desenvolvimento do mercado, a Lei nº 13.756/2018 constava que deveria ser elaborada em um prazo de dois anos, prorrogáveis por mais dois, uma regulamentação da atuação das casas de apostas em território brasileiro. Desta forma, em um primeiro momento, as plataformas operaram sem o pagamento de taxas ou impostos diretos pela concessão para atuarem. Outro problema gerado pela ausência de regulação foi que as casas de apostas, muitas delas localizadas fora do Brasil, não respeitavam a limitação da lei para apostas de quota fixa e tinham jogos de azar espalhados pelos seus sites.

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Foram cinco anos de
distância entre a liberação e

a regularização das casas de
apostas no Brasil.

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Em 2023 foi aprovada a Lei nº 14.790/2023, que trazia a primeira regulamentação dos serviços de casas de apostas digitais no Brasil. Dentre as suas medidas, destaca-se que, em diante, apenas as bets que possuíssem sede, administração direta no Brasil e que pagassem a licença de atuação (no valor de trinta milhões de reais) poderiam atuar em território brasileiro. Para além disso, foi ajustado o valor de tributação que as casas pagavam ao Estado e feitas maiores exigências no sentido de segurança, comunicação e transparência. Também passou a ser obrigatório que ao menos 20% do capital social de uma casa de apostas atuando no Brasil deveria pertencer a residentes brasileiros.

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Essa legislação passou a funcionar durante 2024 e conseguiu garantir diversas melhorias no cenário das apostas, principalmente ao tornar o mercado regulado, através do pagamento da licença, que torna mais fácil a identificação de quais e quantas bets operam no Brasil. Ainda neste ano, foi criada a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA-MF), visando trazer ainda mais segurança ao setor.

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Tópicos como menores de idade apostando e lavagem de dinheiro foram os principais alvos das mudanças que aconteceram para o ano de 2025. Uma atualização na regulamentação prevê que todas as transações feitas por casas de apostas devem acontecer por meios de pagamento autorizados pelo Banco Central. Ela também passou a exigir maior proteção sobre os dados dos usuários e a implementação de um sistema de identificação facial para o acesso de uma conta. Para além disto, a atualização determina que as bets devem possuir um sistema para bloquear a conta de algum apostador, quando identificados sinais de dependência ou que possam comprometer a sua renda.

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Por fim, o domínio “bet.br” foi implementado ao final de todos os sites de apostas legalizados pelo Ministério da Fazenda, facilitando para os usuários identificarem quando estão em um site seguro. Atualmente, a maior discussão sobre mudanças nestas leis se dá acerca da divulgação das bets, principalmente envolvendo influenciadores e clubes de futebol.

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2018

2023

Sistemas de Gratificação:
Como as bets se tornaram uma febre no Brasil?

Antes mesmo das apostas retornarem á legalidade no Brasil, existiam outras formas de jogos que envolviam recompensas em troca de atividades, interações ou uma quantidade baixa de dinheiro perto da potencial recompensa. Cartelas de raspadinha, títulos de capitalização de pagamento único, loterias, bingos e indo para o ambiente digital, recompensa por login e loot boxes em videogames são todas formas de gratificação que existiram no Brasil e que, de certa forma, promoveram a existência da cultura da recompensa enquanto as apostas estiveram proibidas.

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Para isto, é importante diferenciar dois conceitos que são constantemente enxergados como sinônimos: jogo e aposta. O pesquisador em Ludologia, campo que estuda jogos e o ato de jogar, e idealizador da Gamesesis,  Rodrigo de Godoy Domingues explicou essa diferença: “Eu ouço desde pequeno que “ah fulano, eu perdi tudo no jogo” e não, não perdeu tudo no jogo, ele perdeu em aposta. Aposta é um depósito de fé num resultado, a aposta tradicional, como as loterias ou bingo. O jogo, ele não tem esse comportamento de te subtrair a produtos, a única coisa que o jogo faz é te dar experiências, fazer você provavelmente ganhar habilidades, desenvolver habilidades, mas nunca subtrair de fato.”

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Rotineiramente, as pessoas incluem pequenas apostas nas suas vidas, que não necessariamente custam muito ao bolso, mas que trazem, seja por segundos, o sonho de uma mudança de vida ou de um presente inesperado. Este fato, para além de refletir muito o cenário de desigualdade social da sociedade brasileira, desenha um retrato replicado por diversas empresas, que aproveitam desta necessidade ou mesmo vício em recompensas, para fidelizar clientes e gerar a impressão de ganho, quando muitas vezes, não é bem assim.

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O ressurgimento das casas de apostas em 2018 despertaram as marcas sobre o fato de que as recompensas geram necessidade e fidelidade. O modelo de “check-in”, no qual o usuário abre um aplicativo apenas para sinalizar que esteve ali e ganha uma moeda por dia, é um dos grandes exemplos de como a mecânica dos jogos de apostas - de fornecer estímulos - foram tomados como um exemplo de manipulação e algoritmização do cérebro humano. 

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Ifood foi um dos diversos aplicativos á adotar o modelo "check-in" de recompensas ao usuário | Imagem: Reprodução/Ifood

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Utilizados em vários  formatos, as empresas incluem cada vez mais fatores para prenderem as pessoas aos seus produtos e isso em larga escala gera uma necessidade de dopamina que inevitavelmente torna o indivíduo propenso ao vício em apostas. O entendimento sobre como as casas de apostas se proliferaram no Brasil de forma tão rápida e eficaz passa pelos sistemas de gratificação incluídos sistematicamente nos rádios, nas televisões, nas revistas e em altíssima escala nos celulares.

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​Para reduzir os impactos do sistema de recompensas que prende os apostadores em ciclos de repetição, o Instituto de Apoio ao Apostador (IAA) — instituição dedicada a oferecer suporte a apostadores compulsivos e seus familiares —  promove ações educativas voltadas a escolas, universidades e comunidades, explicando como as plataformas utilizam mecanismos de dopamina para manter o jogador conectado. Essas atividades buscam desenvolver o senso crítico e autonomia do público, fomentando a conscientização  do fundamento psicológico por trás dos aplicativos de apostas. Além disso, para auxiliar essas ações, o IAA disponibiliza cartilhas digitais e vídeos explicativos que ajudam o apostador a identificar padrões compulsivos e estabelecer limites saudáveis para o jogo.

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Como as apostas afetam
a Saúde Mental dos indivíduos

Para mais informações, acompanhe a entrevista que realizamos com Aline Esteves:

A popularização das casas de apostas mudou o cotidiano de milhões de brasileiros. Para alguns, as apostas são apenas formas de se divertir, enquanto, para outros, uma válvula de escape para as frustrações do dia a dia. Porém, cada vez mais, esse hábito tem se tornado compulsão, gerando diversos problemas para a saúde mental dos apostadores. Diante disso, muitos estudos têm se comprometido com essa problemática.

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Para Aline Esteves, psicóloga clínica e atuante no Instituto de Apoio ao Apostador (IAA), o problema dos jogos de apostas começa a partir do sistema de recompensa presente no núcleo accumbens, uma estrutura do cérebro que, ao receber dopamina, acentua o desejo e o prazer. Aline afirma que existe uma liberação de dopamina ao ganhar uma aposta, trazendo ao jogador um prazer imediato que orienta o comportamento vicioso. “É isso que faz esse vício ser tão complexo e tão perigoso, o apostador fica naquela euforia e adrenalina, se vai ganhar ou se vai perder” relata Aline. A psicóloga também alerta sobre como os apostadores passam a jogar não só pelo dinheiro, mas pela tentativa de aliviar a ansiedade, as frustrações, e a solidão, sendo essa última motivação um dos problemas mais frequentes em seus atendimentos.

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A psicóloga afirma que muitos apostadores buscam as casas de apostas como forma de entretenimento, mas que em certos momentos acabam perdendo o autocontrole dessas práticas. Dessa maneira, o problema também começa quando o jogo ocupa o espaço emocional da pessoa de forma desproporcional, fazendo com que ela passe a pensar em apostar o tempo todo, afirma Aline. Esses comportamentos são responsáveis por gerar uma quantidade maior de dopamina no sistema de gratificação presente no cérebro, trazendo, muitas vezes, uma sensação de que é necessário repetir esse comportamento, causando assim, atitudes viciosas.

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Aline Esteves alerta para os sinais de que o lazer deixa de ser inofensivo, como os pensamentos constantes nos jogos, tentativa de conter a solidão e perda de bens. Para a psicóloga, muitos apostadores comprometem suas finanças e procuram soluções para contornar esses problemas, recorrendo a venda de seus bens, como carros, residências, entre outros. 

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Esse contexto torna o vício em apostas uma doença silenciosa e que frequentemente é minimizada, uma vez que há uma confusão com hábitos de passatempo. Para Aline, “Quando a família descobre já está um caos. Às vezes a família descobre quando a pessoa tira a sua própria vida”.

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Em um estudo realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), apresentou que cerca de um a cada oito jogadores apresentam comportamentos presentes no diagnóstico de transtorno de jogo. Ao buscar compreender o real panorama de como a aposta tem impactado os brasileiros, o Levantamento Nacional sobre Álcool e Drogas (Lenad), realizou uma pesquisa específica que analisa a frequência e o impacto dos jogos de apostas no Brasil. 

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A pesquisa coletou respostas de 8.844 pessoas para as nove perguntas do Índice de Gravidade do Jogo Problemático, que tem por objetivo analisar os problemas que atravessam os sujeitos que apresentam comportamentos de apostas, identificando os riscos presentes. Os dados foram publicados no Caderno temático - Jogos de aposta na população brasileira, que apresenta um levantamento atual de como as apostas têm impacto na realidade brasileira. De acordo com a pesquisa, 17,4% dos brasileiros apostam em jogos, dado que corresponde a cerca de 28 milhões de pessoas. Dessa porcentagem, 10,6% jogam sem apresentar qualquer risco; 3,4% apresentam comportamentos com baixo risco; 2,6% jogam com risco moderado; e 0,8% apresentam comportamentos de risco, sendo considerados jogadores problemáticos. Os resultados podem ser conferidos no Caderno Temático “Jogos de Aposta na População Brasileira” na terceira edição do LENAD.

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Para a Verywell Mind, plataforma que faz parte da People Inc., o jogador problemático é uma pessoa que apresenta elementos que evidenciam sua falta de controle ao jogar. Geralmente, esses comportamentos causam disfunção significativa em diversos segmentos da vida pessoal do sujeito, afirma Elizabeth Hartney, psicóloga e professora da Royal Roads University, Canadá. Para a professora, a persistência no jogo mesmo após perdas financeiras e relacionais, falta de autocontrole e a tentativa de esconder e mentir para pessoas próximas como família de amigos sobre o envolvimento com as apostas, são alguns dos critérios que definem o diagnóstico de um apostador que apresenta o comportamento de um jogador problemático.

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​O tratamento para os impactos emocionais e psicológicos exige uma combinação de medidas clínicas e sociais. Os grupos de apoio da organização Jogadores Anônimos (JA) oferecem um espaço de acolhimento, onde o apostador pode compartilhar experiências sem julgamento e receber apoio para iniciar sua jornada de recuperação. O método dos 12 Passos utilizado pela organização, que orienta os participantes a reconhecerem a dependência, encararem os prejuízos causados, incentiva o reconhecimento da dependência e o desenvolvimento de estratégias para retomar o controle da vida. Paralelamente, o IAA promove acompanhamento psicológico e psiquiátrico, gratuito ou a preços acessíveis, garantindo que o suporte não se limite à troca de experiências, mas que também envolva o tratamento dos sintomas de ansiedade, depressão e impulsividade que frequentemente acompanham o vício.

Confira o caderno temático abaixo:

Pirataria e Fraudes no mundo das apostas

Não é incomum escutar histórias de golpes e fraudes realizadas dentro da internet, utilizando de cópias ou informações falsas para atrair um usuário a depositar dinheiro e no fim, ficar sem a quantia e sem informações para prestar queixa. Dentre as formas utilizadas para aplicar esses golpes, as casas de apostas, principalmente enquanto não regularizadas corretamente, foram umas das mais replicadas no ambiente digital.

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O principal motivo disso foi a insegurança que cercou os cassinos digitais por muitos anos no Brasil. Devido à falta de regulamentação, não havia uma forma direta de diferenciar os sites cópias dos autênticos e muito menos como identificar se a casa de apostas que o usuário estava acessando era confiável.

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Ao criar uma conta e depositar o seu dinheiro nessas casas piratas, os criminosos tinham acessos a todos os seus dados - dependendo do caso, inclusive informações bancárias - e do dinheiro depositado no site. Muitas vezes o indivíduo só iria identificar que caiu em um golpe quando tentava retirar o dinheiro que ganhou dentro da casa e não conseguia.

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Com as regulamentações feitas e com uma maior atenção das autoridades acerca do tópico das apostas, algumas dessas formas de golpes se tornaram mais fáceis de serem detectadas, porém mesmo assim esse tópico ainda requer muita atenção. A principal forma que os sites encontram de se misturarem entre as casas de apostas licenciadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas, é utilizando de publicidades, sejam através de influenciadores - que promovem jogos falsos e induzem seus seguidores a entrarem em uma plataforma que apenas lhes trará prejuízo - ou em propagandas fixas em sites, mesmo em conhecidos como o YouTube.

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Desta forma, aqui estão alguns fatores para identificar que a plataforma de apostas é 100% segura:

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Dominio bet.br:

Domínio bet.br: Quando o site possui esse domínio, é um indicativo que ele está em dia com as determinações da Secretaria de Prêmios e Apostas. Sites estrangeiros conseguem ter essa nominação e a ausência dela pode ser um indicativo de fraude.

2

Promoções atrativas: 

Os sites fraudulentos também utilizam de ofertas absurdas para induzir os usuários a depositarem dinheiro ali. Tome cuidado com isso e verifique sempre outras características antes de fornecer qualquer informação.

3

Políticas de privacidade claras e verificáveis

Todos os sites de apostas regulamentados são obrigados a ter de forma explícita em seu site as suas normas de saque e depósito de dinheiro e um englobamento geral dos jogos e suas regras.

4

Central de Ajuda:

As casas de apostas também são obrigadas a deixar seu sistema de atendimento explícito e sempre funcional, logo se você tentar acessar alguma aba desse sentido e ela apresentar falhas ou erros constantes, pode ser um indicativo de golpe.

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Certificados:

Todos os sites de apostas regulamentados gostam de demonstrar a segurança do seu site. Um dos métodos utilizados é exibir pelo site as instituições que avaliaram e aprovaram o seu funcionamento, logo também é algo para se atentar.

6

Cuidado com aplicativos:

A maioria das casas de apostas preferem não ter aplicativos, logo, se deve tomar muito cuidado ao baixar um, mesmo que seja nas lojas oficiais de aplicativos. Existem muitas réplicas de bets populares, mudando uma ou duas letras no nome. Por fim, observe as avaliações e tenha cuidado com ofertas muito escandalosas ou com suas informações pessoais que são solicitadas.

Vamos reforçar...

Impacto financeiro das apostas

A psicóloga, ao aprofundar em como os apostadores conseguem colocar tanto dinheiro nas apostas, compartilhou que “A pessoa está ali na plataforma perdendo dinheiro, mas ela não está perdendo dinheiro na percepção dela. Ela tá perdendo moedinhas.”. A desmaterialização do dinheiro e o uso imprudente das bets e apostas online tem causado tragédia na economia pessoal de usuários.

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Com o desenvolvimento do hábito em compulsão, as finanças do apostador são comprometidas e eles se tornam reféns do vício, afetando tanto a vivência individual quanto às relações familiares do indivíduo. Esteves conta que alguns usuários perdem tudo, e com as prioridades modificadas, começam uma busca cíclica por dinheiro para continuarem suas apostas: “A pessoa começa a vender coisas, mentir e pegar dinheiro emprestado. [...] Ela vai atrás de alguma forma em que ela consiga o dinheiro, como com colegas de trabalho e com vizinhos.”.

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Uma funcionária, assistente de vendas, em uma Magazine Luiza do Rio Grande do Sul (RS) chegou a desviar 53 mil reais da tesouraria e do fundo de troco da loja para tentar recuperar o dinheiro perdido em apostas online. Essa dependência, além de causar a perda de seu dinheiro, resultou na perda de seu trabalho também, já que a Justiça do Trabalho considera que a prática de apostas interferem com o ambiente de trabalho, classificando o caso como demissão por justa causa. Dessa forma, o vício apenas aumenta o prejuízo e a vulnerabilidade econômica e social dos apostadores que se encontram cada vez mais desesperados em recuperar o dinheiro que perderam, em um hábito que começou com a intenção de enriquecê-los.

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Uma pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) e pela AGP Pesquisas, que buscava aprofundar o mapeamento dos efeitos das apostas no Brasil, analisou que pelo menos 63% dos apostadores comprometeram a renda da própria família. Felipe Tavares, economista chefe da CNC, contou ao G1 em entrevista: “A renda das famílias está sendo apertada dia após dia e uma decisão equivocada de onde alocar o seu dinheiro pode levar a uma tragédia financeira e às vezes até familiar. Tem gente vendendo casa e carro para apostar na expectativa de ter um ganho extraordinário e mudar de vida”, essas dificuldades financeiras desestruturam e destroem famílias.

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As maiores vítimas são famílias que têm pouca renda e buscam nas apostas uma possibilidade de mudarem de vida. O Banco Central do Brasil realizou uma pesquisa sobre o perfil dos apostadores no Brasil em agosto de 2024. A busca revelou que: "5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família (PBF) enviaram R$ 3 bilhões às empresas de apostas utilizando a plataforma Pix, tendo uma média de 100,00 R$ gastos por pessoa. Destes apostadores, 4 milhões (70%) são chefes de família (quem de fato recebe o benefício) e enviaram R$ 2 bilhões (67%) por Pix para as bets”. O economista Josué Coimbra, formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) destacou que “o maior risco é o endividamento, especialmente de quem tem pouca renda”, demonstrando como, em vez de representar uma chance de ascensão, o hábito compulsivo de apostar acaba perpetuando a exclusão social e aprofundando desigualdades já existentes.

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O impacto financeiro do vício em apostas não é um fenômeno isolado, mas parte de uma dinâmica de risco crescente que atinge milhares de brasileiro. A 8ª edição do Raio-X do Investidor Brasileiro, pela Anbima em parceria com o Datafolha, mostra a pluralidade da situação ao apontar que mais da metade dos apostadores tentam recuperar o dinheiro perdido voltando a apostar, enquanto 30% admite apostar além do que poderia e 10% recorrem a empréstimos ou à venda de bens para manter o vício. Além disso, parte expressiva dos jogadores relata sentimentos de culpa em relação aos gastos, revelando como as apostas, além de comprometerem a estabilidade financeira, também afetam o bem-estar emocional e ampliam a vulnerabilidade de todos os envolvidos.

Considerando esse contexto, o IAA promove atendimentos de consultoria financeira voltados para ex-apostadores e suas famílias, incentivando hábitos de poupança, planejamento de gastos e gestão de renda. Essa abordagem não apenas alivia o impacto imediato das perdas, mas também fortalece a estabilidade econômica no longo prazo, prevenindo que o ciclo do endividamento volte a se repetir.

O jogo por trás das telas: propaganda e dependência do mercado

O crescimento explosivo dos jogos de aposta no brasil não se deve apenas ao entusiasmo dos apostadores, mas a uma estratégia publicitária bem orquestrada, que se infiltrou nas transmissões esportivas, nos intervalos comerciais e até nas redes sociais de influencers. Essa exposição constante transformou as apostas em entretenimento, impulsionando a mídia como uma das principais vitrines desse mercado, a partir do patrocínio milionário das plataformas. Nicolas Caballero — especialista em marketing esportivo que trabalhou como gerente de patrocínio para a EstrelaBet — ao ser perguntado sobre qual seria o impacto da proibição da comercialização das bets disse que “com a ausência imediata das casas apostas, todo o ecossistema do país sofreria.”. 

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Caballero define 3 pilares do marketing das bets, sendo eles: as propagandas compartilhadas na mídia tradicional; as publicidades realizadas por influencers afiliados; e o patrocínio de times esportivos. O marketing esportivo atraí grande quantidade de usuários para as casas de aposta, de acordo com ele, 90% das apostas acontecem no segmento do futebol. 

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A partir de suas experiências trabalhando na área, Caballero recontou como a publicidade das bets nos esportes fomentam a movimentação do mercado: “[...] as pessoas estão assistindo determinado jogo de futebol e vão fazer uma aposta enquanto elas veem o jogo, ou seja, o posicionamento das casas de apostas é: diversão em dobro.”. Dessa forma, os telespectadores são um dos público-alvos, potencializando o mercado de apostas no Brasil.

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Esse mercado, que tem crescido exponencialmente, não influencia apenas os torcedores, mas impacta diretamente o esporte, uma vez que quase todos os principais times brasileiros de futebol são patrocinados por casas de apostas.

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​Todos os times de futebol da Série A do Campeonato Brasileiro são patrocinados por alguma casa de apostas.

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Sabendo desse potencial, os investimentos das bets em times esportivos têm gerado um retorno expressivo para o mercado. Apenas no Campeonato Brasileiro de Futebol masculino, 18 dos 20 times da Série A tem uma casa de apostas como o seu patrocinador máster; na Série B são 17 de 20 times. Ao ser perguntado sobre uma possível proibição das publicidades deste mercado, Caballero disse: “A ausência imediata das casas de apostas [...] levaria grande parte dos clubes esportivos brasileiros de futebol ao desastre econômico.”.

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​Assim, é possível identificar a intrínseca participação das bets no desenvolvimento da economia contemporânea brasileira. Josué Coimbra declarou que “o mercado de apostas já movimenta bilhões no Brasil. Regulamentado, pode gerar mais impostos e empregos”. Por isso, regulamentações semelhantes às aplicadas ao tabaco e ao álcool exigem que anúncios incluam mensagens de advertência sobre os riscos do vício, como tentativa de reduzir a influência massiva do marketing de apostas.

Consequências do Vício:
O impacto não é apenas individual

Como vimos, o impacto das apostas na saúde mental é alarmante. Mas não se limita apenas ao sujeito que pratica, os desdobramentos do vício afetam tanto o apostador quanto seu ciclo social, como família e amigos. Aline Esteves relata que um dos efeitos mais graves do vício é a destruição das relações familiares pelo comportamento compulsivo em relação aos jogos. “Você vê as pessoas perdendo tudo, vendendo patrimônio, tendo que vender a casa, a herança dos pais. É bem triste”, afirma a psicóloga. 

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Aline diz que muitos dos depoimentos que ela recebe são questionamentos de familiares dos apostadores, perguntando de onde eles retiram dinheiro para continuar apostando. “Muitos conseguem crédito consignado, pedem para agiotas, mentem para amigos e familiares, contando histórias tristes” relata a psicóloga, sobre as maneiras que os apostadores encontram de manter o vício.

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Importante também destacar que muitos apostadores desenvolvem dívidas significativas, levando em alguns casos à situação de falência. Segundo dados apresentados pelo Instituto Locomotiva, em agosto de 2024, 86% dos apostadores acumularam dívidas e 64% estão com o nome sujo no Serasa, serviço de proteção de crédito. Em alguns casos, é comum que alguns usuários realizem empréstimos para continuar suas apostas, provocando uma piora das dívidas.

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Aline afirma que o vício em apostas é uma doença silenciosa e que a família descobre a situação de forma tardia. “Às vezes quando a família descobre, já está um caos. Às vezes a família descobre quando a pessoa já tirou a própria vida” alerta a psicóloga sobre a importância de se atentar aos comportamentos e a saúde mental nesses casos. Essa demora para notar os comportamentos de pessoas próximas acontece pela pouca comunicação entre os familiares, uma vez que o apostador não tem coragem de relatar sobre sua compulsividade.

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A omissão ocorre por diversos fatores, desde a vergonha de relatar sobre o vício, em contar sobre as dívidas impagáveis, quanto o medo de como os familiares irão reagir, afirma Aline: “Muitas vezes os sinais não são evidentes, dificultam o reconhecimento do problema, gerando o isolamento, a vergonha, a culpa”. De acordo com um dos relatos presentes em uma de suas sessões, um dos apostadores disse como é difícil a relação com seus familiares “Eu entendo que é complicado lidar com a gente, mas não é só porque eu tô reclamando de lavar uma louça, que precisa jogar na minha cara que estou devendo muito”. Para Aline, essa é uma situação decorrente dos pacientes, e essa atitude dos familiares se enquadra como uma forma velada de maus tratos. “Isso vai entrando nas entranhas da família e vai se tornando uma relação insuportável” a psicóloga conclui afirmando que o familiar precisa de apoio, realizando terapia também.

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Esse cenário permite visualizar a omissão do real quadro que o apostador se encontra, sob a luz da hipótese da espiral do silêncio, criada por Elisabeth Noelle-Neuman. De acordo com o estudo, a espiral do silêncio trata-se do medo do isolamento quando um determinado indivíduo apresenta uma opinião ou comportamento diferente do restante do grupo. Geralmente, essas pessoas tendem a não expor suas ideias e opiniões, mantendo-se em silêncio para não serem criticadas. Dessa maneira, quando comparado a realidade que os apostadores enfrentam em seus ciclos pessoas, é possível notar o desenvolvimento de uma espiral do silêncio, já que a pressão social e o medo da ridicularização reforçam o medo do isolamento do indivíduo, o que potencialmente pode aprofundá-lo mais ainda dentro do mundo das apostas.

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Por isso, a recuperação do apostador é mais efetiva quando envolve toda a rede de apoio. Dessa forma, o IAA oferece grupos de apoio específicos para familiares, nos quais são discutidas estratégias de acolhimento e de prevenção de conflitos domésticos. Essas seções ajudam a reduzir o estigma associado ao vício e a reconstruir o diálogo, criando um ambiente que favorece a reintegração do apostador na vida familiar e comunitária. Também são oferecidos programas de mediação para casais e aconselhamento financeiro coletivo, para garantir que a reparação dos danos seja um esforço compartilhado.

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O apoio oferecido por essas organizações significa uma virada de chave para apostadores compulsivos. Com esses acompanhamentos, alguns conseguiram interromper o ciclo de dívidas e resgatar planos de vida que haviam sido colocados em segundo plano, como em depoimentos compartilhados no site oficial do Jogadores Anônimos que contam a árdua trajetória de diversos apostadores que buscaram ajuda e por fim superaram o vício e se recuperaram das dívidas e perdas. Com essa atuação, as instituições mostram que a dependência em apostas não é um destino inevitável, ao unir cuidados profissional e envolvimento comunitário, as iniciativas abrem espaço para que apostadores e família possam enxergar um futuro possível além da compulsão.

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